"Dá-me tua mão. Vou agora te contar como entrei no inexpressivo; que sempre foi a minha busca cega e secreta; De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois; De como vi a linha de mistério e fogo que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota; entre dois fatos existe um fato; entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam; existe um intervalo de espaço; existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial; está a linha de mistério e fogo; que é a respiração do mundo. E a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."
Clarice Lispector
Era uma dor horrível. Jamais sentira nada igual. Um vazio que sugava tudo e todos à sua volta. Era como se ela estivesse sumindo, a sensação era horrível. O nada. Com certeza, no mundo, não havia NADA pior que o NADA. Chegava a ser irritante tudo isso, esse desespero crescente. Ela só queria que nada mudasse. Sua vida, aparentemente, estava perfeita, com tudo o que ela desejava um dia alcançar. Só que por uma coisa, parecia que nada mais tinha sentido, e o desespero estava insuportável. Não conseguia mais pensar, exceto na dor. E, principalmente, nele. Mas de qualquer jeito, nada mais importava mesmo.
E saiu para andar pela cidade. Estava frio, e se contentava com isso. O tempo e o gelo daquele dia eram um reflexo de sua alma. Vazia. Nessas horas, ela se tornava mais racional. E estava bem assim. Quer dizer, estava melhor, pois não estava bem. Enquanto tomava seu café, andava e andava. Via folhetos jogados pelo chão, pichações nas paredes, pessoas andando. Mesmo com tanta gente, se sentia sozinha. Ninguém poderia ajudá-la.
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